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Foto cortesia de FATEO.

Dr. Justo González abordou o tema: Wesley e Calvino, pontuando a crítica que Wesley fez ao reformador de Genebra e como ele se relacionou com a doutrina calvinista na Facultade de Teologia da Universidade do São Paulo.

Foto cortesia do Expositor Cristão.

O Dr. Justo González foi o editor-geral dos 14 volumes das Obras de Wesley em espanhol e já publicou vários livros sobre o tema, entre eles, Wesley para a América Latina Hoje, que reúne as conferências apresentadas no ano de 2001, quando esteve na 50ª Semana Wesleyana.

Foto cortesia do FATEO.

Uma semana ouvindo sobre diálogo wesleyano. Esse foi o resumo da 65ª Semana Wesleyana que trouxe, pela segunda vez em 15 anos, o prof. Dr. Justo L. González.

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Justo L. González: homem bom, cheio do Espírito Santo e Fé

Por José Geraldo Magalhães*
09 de junho de 2016

Entre uma palestra e outra na 65ª Semana Wesleyana realizada na Faculdade de Teologia no mês de maio, o Dr. Justo L. González, conferencista convidado para o evento, separou um tempo de 40 minutos para esta entrevista. Uma das pessoas mais interessantes, humildes e dotadas de um conhecimento histórico – embora não gostasse de história quando adolescente – que já entrevistei.

O Dr. Justo González foi o editor-geral dos 14 volumes das Obras de Wesley em espanhol e já publicou vários livros sobre o tema, entre eles, Wesley para a América Latina Hoje, que reúne as conferências apresentadas no ano de 2001, quando esteve na 50ª Semana Wesleyana. É um escritor e conferencista de trajetória reconhecida lecionando em várias universidades internacionais. Estudou no Seminá- rio Evangélico de Teologia de Matanzas (Cuba), obteve o doutorado em teologia na Universidade de Yale (EUA). Foi professor do Seminário Evangélico de Porto Rico e na Candler School of Theology de Atlanta (Geórgia, EUA), entre outras, mas o que marcou mesmo, foi a simplicidade desse servo de Deus.

De onde veio a paixão por história?

Quando estava na escola, o tema que eu menos gostava era a história. Eu odiava histó- ria. Era algo horrível. Guardar muitos nomes, muitas datas, batalhas e muitas coisas que não tinham muita importância para mim. Depois, lentamente fui dando conta de que história é o registro de toda a vida humana, principalmente quando eu estava no seminário e comecei a ler os livros, especialmente dois: A religião Cristã de Calvino e a Dogmática Eclesiástica de Karl Barth. Lendo os livros, encontrei muitos nomes de pessoas que não conhecia.

Eu me perguntava: ‘Mas se eu quero fazer teologia, preciso fazer história’. É impossível conhecer os fatos históricos se ninguém nos conta. O Antigo Testamento começa com cinco livros de histórias. O Novo Testamento também e depois com as Cartas muito particulares de um momento histórico. O tema da história é central para a teologia. Se não fosse por razão dos nossos antepassados da fé, não teríamos a Bíblia. Ela foi copiada, recopiada, guardada por muitas pessoas. Toda essa história vem a nós e quando leio a Bíblia eu não posso lê-la como algo que tenha caído do céu. Preciso lê-la como algo que me conecta com a Igreja primitiva, aos tempos de Jesus. A história muitas vezes nos permite livrar da história mais recente.

Como o senhor avalia a caminhada da Igreja Protestante nesses 499 anos? Igreja reformada sempre reformando. A Igreja precisa de uma nova reforma?

A Reforma de 1517 foi um evento que levou muito mais tempo que, em certo modo, durou na Igreja Católica Ibérica. Houve outras reformas dentro da própria Igreja Católica. Depois houve uma ruptura e novas rupturas dentro da ruptutra. Era trágico, mas necessário. Era necessário porque precisava descobrir alguns elementos do evangelho que haviam ficado esquecidos. Ao mesmo tempo trágico porque a unidade da igreja é fundamental para o evangelho. Naturalmente, a unidade da Igreja não depende de nós, mas do Senhor da Igreja. Importante, hoje, é valorizar tudo o que aconteceu no século XVI para descobrir quais elementos podem nos ajudar na missão hoje.

As mulheres foram importantes na Reforma? Por que elas não são lembradas ou são poucos lembradas?

Por muitas razões. Primeiramente pelas circunstâncias culturais daqueles tempos que não as permitiam ir muito à frente. Muitas delas eram mulheres que trabalhavam da maneira que a cultura permitia. Muitas escreviam cartas, organizavam movimentos, mas nunca à frente das coisas. Por essa razão, quando se fala dos reformadores, não se fala daquelas que estavam trabalhando com eles. Outra coisa importante a dizer é que isso não é um problema apenas da Reforma, mas de toda a Igreja. No tempo dos “Pais da Igreja”, elas ficam esquecidas. Em tempos mais recentes as mulheres se questionam ao dizer "onde está a nossa história?". Não é uma tarefa fácil, porque a maior parte dos recursos, documentos falam principalmente dos homens. Então, é necessário muitas vezes ler nas entrelinhas para descobrir as mulheres nesse cenário.

O senhor está vivendo nos Estados Unidos há um bom tempo. Como avalia a teologia latinoamericana?

Depende do lugar, depende da pessoa, depende da escola e da igreja (risos). O que mais me preocupa é que a teologia latino-americana é um tema de interesse, de curiosidade, mas muitas vezes não é um desafio à teologia dominante. As pessoas querem estudar num curso de teologia latino-americana, mas o curso de teologia não tem adjetivos; é um curso de teologia sem adjetivos. Uma outra preocupação é que se estuda, mas não se pratica o que a teologia latino-americana diz. Há muitos anos eu estava num seminário nos Estados Unidos, em Nova York, o presidente me disse numa palestra: "é importante que você saiba que nessa escola temos sete professores/as que estão estudando espanhol porque querem conhecer a teologia da libertação".

Eu disse: "mas como? A teologia da libertação menciona certas práticas acerca dos/as pobres, da relação entre prática e teoria. Eu acho um pouco curioso e estranho que vocês estejam interessados/ as em estudar espanhol para ler livros que vêm de uma distância de mais de 5 mil quilômetros e não para falar para o povo pobre que fica aqui mesmo". Silêncio absoluto. As coisas começam a mudar principalmente para as mulheres, negros/as, latinos/as, que são pessoas que se sentem marginalizadas por essa teologia sem adjetivos, se ela não tem é porque se considera absoluta e pertence às classes dominantes.

A história mostra que a Igreja sempre passou por mudanças. No Brasil a Igreja Metodista está retomando a prática do discipulado, dos pequenos grupos. Como o senhor avalia essa questão?

Os pequenos grupos podem e devem ser muito bons. Quando a Igreja é muito grande, é possí- vel compartilhar a fé, as experi- ências, se apoiar uns nos outros. A preocupação é que esses grupos são muitos homogêneos, são da mesma classe social, mesma idade, gênero ou sexo, mesma educação e mesmas opiniões políticas. Existe o perigo de se criar os pequenos grupos onde os/as cristãos/ãs não têm que se relacionar com outros/ as cristãos/ãs que não são como eles. Os pequenos grupos são muito bons, mas é importante que eles tenham a mesma perspectiva, experiências, educação que existe na Igreja, caso contrário a Igreja resulta em pequenos grupos de interesses. Os pequenos grupos são para a unidade da Igreja.

Se Deus é universal, Ele salva todas as pessoas?

Eu diria duas coisas. Isso não é problema meu, mas de Deus. Eu prefiro que Ele decida, eu confio mais em Deus que em mim (risos). Segunda coisa, se alguém vai para o inferno, isso ainda é uma expressão do amor de Deus para essa pessoa. Não é uma questão que Deus ama uns e não outros. De alguma maneira que eu não compreendo, o amor de Deus triunfa no final; mesmo lá no inferno, o amor de Deus triunfa no final. Digo outra vez, isso é problema de Deus.

* José Geraldo Magalhães é o editor do Expositor Cristão: expositorcristao@metodista.org.br.  Confira a entrevista completa com outras perguntas realizadas em vídeo no site www.metodista.org.br