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Ilustração cortesia da blog da Luiz Carlos Ramos

A Via Crucis na perspectiva do peregrino de Cirene

Por Luiz Carlos Ramos*
02 de abril de 2015

Prólogo

Meu nome é Simão, que significa “aquele que ouve”, assim como Simone, Simon, Ximenes, Simeão, Saymon. Sou natural de Cirene, que fica no norte da África. Já faz um século que estamos sob o domínio romano. Aprendemos a adorar ao Deus único com nossa rainha ancestral, que ficou conhecida como a Rainha de Sabá, que por sua vez o aprendeu do sábio Rei Salomão.

Cresci ouvindo que todos deveríamos nos esforçar para, ao menos uma vez na vida, peregrinar até Yerushalem, a Cidade da Paz, e participar das solenidades da Páscoa. Pois, finalmente, aqui estou. Depois de uma longa jornada de mais de 1500 quilômetros, quase seis meses de viagem, durante a qual enfrentei, com meus companheiros de viagem, o calor causticante dos dias e o frio congelante das noites no deserto. Venci terríveis tormentas e tempestades de areia, cruzei montanhas e vales, escapei das ameaças de malfeitores e salteadores, tive fome e sede, e não desfaleci graças à hospitalidade e solidariedade de outros peregrinos como eu… Aqui cheguei, finalmente, com a graça do Eterno.

E como reza a tradição, já vesti meu traje de linho branco sem mácula para poder participar da cerimônia da aspersão do sangue do cordeiro e obter o perdão dos meus pecados. Pretendo levar esta mesma roupa, com as marcas do sangue do cordeiro, para mostrar a todos da minha família e do meu povo, como prova de que estive aqui e de que recebi o perdão do Eterno.

No caminho para o Templo, devo passar pelo palácio de Pôncio Pilatos, governador da província romana da Judeia, responsável pela cobrança dos impostos e também encarregado de pôr fim às rebeliões frequentes que costumam acontecer por aqui.

Com esses romanos é melhor não brincar. Eles costumam ser implacáveis. Sei disso por experiência própria e por ver como eles nos tratam lá em Cirene.

Primeira Estação: Jesus é condenado à morte (cf. Marcos 15)

Eis, aí está o suntuoso palácio. Mas parece haver um tumulto… Que é que está acontecendo? Quem é aquele vestido com tanta pompa? Não acredito, só pode ser o próprio Pilatos. Daqui dá até para ouvir o que ele diz: «Escutem, quero que todos saibam que não encontro nenhum delito neste homem».

Perguntei a alguém da multidão de quem ele estava falando. Disseram-me que se referia a um nazareno chamado Jesus. E logo vi sair Jesus usando uma coroa de espinhos e trajando um manto púrpura. Pilatos olhou para a multidão e disse: «Aqui está o homem!»

Quando o viram os principais sacerdotes e os seus guardas, gritaram: «Crucifica-o! Crucifica-o!» e diziam: «Temos uma lei, e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si mesmo se fez Filho de Deus.»

Fiquei espantado com tudo aquilo. Como pode ser isso, estão gritando, pedindo a crucificação de alguém que não é culpado de nada? Mas os líderes religiosos criaram uma situação tal que Pilatos não teve outra alternativa, a não ser entregá-lo para que fosse crucificado.

Segunda Estação: Jesus carrega a cruz (Cf. Isaías 53.4-5; João 19.17; Lucas 9.23-24)

Tomaram eles a Jesus; e ele próprio, carregando a sua cruz, saiu para o lugar chamado Calvário, Gólgota em hebraico (esse lugar tinha esse nome porque tinha a forma de uma caveira). O condenado tinha suas costas em carne viva pelas chicotadas que recebera. E os ferimentos causados pela coroa de espinhos fazia parecer que suava e chorava sangue.

Olhando para sua expressão, tive a impressão de que era o nosso sofrimento que ele estava carregando, era a nossa dor que ele estava suportando. Não era por causa das suas próprias culpas que Deus o estava castigando, que Deus o estava maltratando e ferindo. Ele estava sofrendo por causa dos nossos pecados, estava sendo castigado por causa das nossas maldades. Era como se nós fossemos curados pelo castigo que ele sofreu, sarados pelos ferimentos que ele recebeu.

Contaram-me que ele dizia a todos: «Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida a salvará.»

Terceira Estação: Simão Cirineu ajuda a carregar a cruz (cf. Marcos 15.21-22; Mateus 27.32-33; Atos 13.1; Gálatas 6.2; Colossenses 1.24)

Eu  ali, perplexo, acompanhando aquele homem desfigurado pela tortura e pela humilhação, quando senti uma mão pesada sobre meus ombros. Um soldado rude e ameaçador gritava comigo: «Anda, negro, carregue a cruz desse infeliz, senão não chegaremos nunca àquela Caveira.»

Eu conhecia a truculência dos soldados romanos o suficiente para saber que eu também não teria alternativa. Por que eu? Talvez porque estava na cara que eu era estrangeiro. Talvez por causa da cor da minha pele. Talvez porque notassem que eu estava compadecido e me solidarizava com aquele homem.

Era uma cruz pesada. Tão pesada que aquele homem torturado não poderia levá-la sozinho. A madeira me pesou nos ombros, feriu-me. Carreguei aquele tronco imundo com muito esforço. E  eu pensava que já não poderia ir ao Templo para receber o perdão. Minha roupa de linho branca estava ficando cada vez mais suja. O sangue daquele torturado já havia respingado por toda a minha alvejada túnica. Os sacerdotes nem sequer permitiriam que ebu me aproximasse do altar naquele estado.

Mais tarde ouvi, enternecido, que esse Jesus ensinava que a lei se cumpria quando levamos as cargas uns dos outros. E agora me alegro pelos padecimentos que tenho de suportar por causa do corpo de Cristo, que como aprendi é a sua igreja.

Quarta Estação: Jesus encontra as mulheres de Jerusalém (cf. Lucas 23.27-31)

A subida para o Gólgota era acompanhada de grande multidão e havia um grupo de mulheres que choravam e se lamentavam. Jesus dirigiu a elas um olhar, que era ao mesmo tempo manso e fundo, e lhes disse: «Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim, mas por vocês e pelos seus filhos!»

Como pode ele, em tais circunstâncias e em tamanha agonia, preocupar-se com o choro das mulheres e com os filhos delas? Poderá haver alguém assim, que até na hora da morte deixa de se preocupar consigo mesmo pra se compadecer dos mais desprotegidos da sociedade: as mulheres e as crianças?

Quinta Estação: Jesus é despojado de suas vestes (c. João 10.18; 19.23-24)

Esforçando-me para subir com aquele peso às costas, e agitado por aqueles pensamentos que me perturbavam o coração, pude notar os soldados, praticamente indiferentes, discutindo entre si quem ficaria com a túnica do condenado. «É uma bela peça», diziam, «tecida de cima a baixo. Dá dó rasgá-la. Façamos o seguinte, vamos tirar sorte jogando dados para ver quem fica com ela.»

Pensei comigo: «Ladrões!». Mas, mais tarde, convivendo com seus discípulos, soube que ele havia dito «eu dou a minha vida para recebê-la outra vez, ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha própria vontade. Tenho poder para a dar e poder para tornar a retomá-la».

Sexta Estação: Jesus é pregado na cruz (Cf. Lucas 23.34-43; Marcos 15.23-27)

Cheguei ao topo do Gólgota exausto, sujo do sangue vertido por aquele homem. Com um empurrão me arrancaram a cruz, jogaram-na ao chão, e nela deitaram Jesus para o crucificarem com grandes e pesados pregos.

A dor que sentia era tanta que alguém tentou lhe dar vinho misturado com mirra, para anestesiá-lo, mas ele se recusou a beber…

Não passava muito das nove horas da manhã quando o crucificaram. Fixaram uma placa na cruz com dizeres que indicavam o motivo da sua condenação: «O rei dos judeus».

Com ele, crucificaram também outros dois homens, um à sua direita e outro à esquerda. Disseram que eram ladrões, ou talvez rebeldes, agitadores, subversivos, terroristas.

Se não tivesse visto com meus próprios olhos e ouvido com meus próprios ouvidos, eu não acreditaria que ele teria mesmo dito a respeito dos que o crucificaram: «Pai, perdoa esta gente! Eles não sabem o que estão fazendo.»

Mas todos zombavam de Jesus fazendo comentários de mau-gosto, dizendo que se ele fosse mesmo o Filho de Deus ele deveria descer da cruz. Os soldados também zombavam de Jesus. Até um dos criminosos que estava crucificado ali insultava Jesus dizendo: «Você não é o Messias? Então salve a você mesmo e a nós também!»

Mas o que estava crucificado do outro lado reagiu dizendo ao seu companheiro: «Você não teme a Deus? A nossa condenação é justa, e por isso estamos recebendo o castigo que nós merecemos por causa das coisas que fizemos; mas esse homem não fez nada de mau. Então disse: — Jesus, lembre-se de mim quando o senhor vier como Rei!»

E mais uma vez fui surpreendido pelo crucificado, cuja cruz eu havia ajudado a carregar, quando o ouvi dizer àquele condenado: «Eu afirmo a você que hoje você estará comigo no paraíso.»

Sétima Estação: Jesus morre na cruz (cf. João 19.25-30)

Estavam ao pé da cruz algumas mulheres e um menino. Deduzi que a mulher que parecia ter o coração dilacerado era a mãe do crucificado. As outras poderiam ser parentes, ou amigas da família, certamente pessoas que o amavam muito.

Esse homem a quem acabaram de crucificar só poderia ser mesmo alguém extraordinário. Notei quando se dirigiu à sua mãe, com muita dificuldade e esforço, dizendo a respeito do menino que estava com ela: «Mulher, a partir de agora ele será o seu filho.» E falou pro menino: «Ela agora é a sua mãe.»

Já era por volta das três da tarde. Parece que Jesus sabia que tudo estava terminado. Então, disse: «Estou com sede!» Molharam uma esponja no vinho, puseram a esponja num caniço de hissopo e a encostaram na boca de Jesus. Nessa hora, disse: «Tudo está consumado!» Então baixou a cabeça e morreu.

Oitava Estação: Jesus é retirado da cruz (João 19.31-38)

Para ter certeza de que estava mesmo morto, um soldado atravessou o abdome de Jesus com uma lança.

Logo chegaram uns homens que o retiraram da cruz e o levaram para ser sepultado. Tiveram que fazer isso às pressas porque em breve o sol iria se pôr, e teria início o Shabat, no qual não se pode fazer nenhum trabalho.

Nona Estação: Jesus é Sepultado (João 19.41-42)

Eu estava como que eletrizado por aquele homem que morrera de forma tão admirável. Fiquei, então, pensando em quão extraordinária teria sido a sua vida…

Nas imediações havia um jardim com um túmulo novo onde ninguém ainda tinha sido colocado. E deu pra ver que puseram ali o corpo de Jesus porque o túmulo ficava perto e por isso puderam sepultá-lo em tempo para guardar o Sábado.

Epílogo (cf, Romanos 16.13; 2 Timóteo 4.14)

Fiquei mais uns dias em Jerusalém. As palavras, os gestos, o olhar daquele homem não me saiam do pensamento. Decidi que não poderia retornar sem saber mais a seu respeito. Fui procurar os seus seguidores. Muitos tinham fugido ou se escondido.

Mas, cinquenta dias depois daqueles acontecimentos, sucedeu algo impressionante. De repente os seus discípulos perderam o medo, e saíram pelas praças dizendo que Jesus havia ressuscitado, e que com ele todos nós ganhamos uma nova vida diante de Deus. Uma vida abundante e eterna.

Essa experiência transformou a minha vida para sempre. Hoje, já ancião, me tratam como um  Doutor aqui na igreja em Antioquia, cidade onde vivo a minha velhice, e tenho orgulho de poder dizer que minha esposa e nossos filhos, Alexandre e Rufo, se tornaram amigos muito próximos do grande apóstolo Paulo, com quem também aprendi muito, pessoalmente e por suas cartas, nas quais nos contava mais sobre aquele que ressuscitara dentre os mortos e que hoje vive e reina à destra do Pai e no coração de todas as pessoas que, como eu, aprenderam a amá-lo.

Todas essas transformações na minha vida aconteceram porque fiz uma viagem frustrada até Jerusalém com a  intenção de receber, no Templo, o perdão dos sacerdotes que deveriam aspergir com um feixe de hissopo o sangue de um cordeiro sacrificado sobre a minha veste de linho branca.

Quando cheguei em casa, tirei aquela veste rota, suja, maculada, ensanguentada… estava a ponto de a deitar fora… Foi então que me dei conta: Eu tinha voltado purificado. Sim! meus pecados foram todos lavados, e está aqui a prova: O sangue que ficou nesta túnica, não o sangue de um cordeiro qualquer, mas o sangue de um peregrino, que como eu era um excluído entre os excluídos, e que por mim fora condenado sem ser culpado, exilado da justiça dos homens.

Um peregrino que se deixou crucificar, por amor. Que deu a vida para reassumi-la e salvar-nos a todos, igualmente, da morte, e que agora reparte conosco a sua vida, vida abundante, vida plena, vida eterna.

 

* Este texto, de Luiz Carlos Ramos, começou a ser escrito na cidade do México, em julho de 2014, na oficina de produção litúrgica promovida pela Red Crearte, com o tema  “Peregrinagem de justiça e paz”, te eve como ponto de partida e inspiração o artigo “Simão Cirineu: mudança através  da cruz” de Edson Xavier, disponível em http://www.ebah.com.br/content/ABAAAgKQIAD/simao-cirineu-mudanca-atraves-cruz, também sob uma licença Criative Commons. Os textos bíblicos foram adaptados livremente a partir da leitura comparada das versões ERAB, ERCB e NTLH da Sociedade Biblica do Brasil.