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Foto por John C. Goodwin.

A tradição oral e os evange­lhos estão na origem do catá­logo “canônico”. Para Helmut Koester, a tradição oral era transmitida sob a autoridade do “Senhor”, composta de ditos de Jesus de Nazaré e histórias de milagres; dentre elas, es­tão “as parábolas inicialmente escritas em aramaico, depois traduzidas para o grego e in­troduzidas no capítulo 4 do Evangelho de Marcos”.

A formação do cânon bíblico: procedimentos para o Novo Testamento

 

Por João Batista Ribeiro Santos *
18 de jaineiro de 2017

Este artigo visa comple­mentar a pesquisa ante­rior em que foi abordado o Primeiro Testamento. Desde períodos pré-cristãos são ates­tados os usos do termo canōn como “lista” e “registro”, equi­valente a katālogos, para desig­nar tabelas matemáticas e cro­nológicas.

A palavra grega kanōn tem origem semita e significa “cana”, depois passou a significar o me­tro do carpinteiro e a régua do escrevente. O desenvolvimento do termo levou às significâncias posteriores, “metro”, “norma”, “regra” – aplicadas nos domí­nios da estética, linguística, fi­losofia e religião.

A Escritura dos/as primeiros/ as cristãos/ãs era a Bíblia he­braica em sua tradução grega, a Septuaginta, obra dos/as judeus/ as de Alexandria; eles/as consi­deravam até expressões apócri­fas como parte da Escritura (cf. 1Co 2.9; Lc 11.48; Jo 7.38; Tg 4.5; Jd 14-15). O primeiro registro literário temos em 2Coríntios 3.14, quando o apóstolo Paulo fala da “leitura da Antiga Alian­ça”. Nesse sentido, a Septuagin­ta é a referência quando os/as primeiros/as cristãos/ãs men­cionam a “Escritura” de modo geral ou quando empregam a fórmula “Está escrito”.

Segundo Philipp Vielhauer, um escrito cristão somente atin­giu a categoria de uma “escritu­ra sacra”, como canōn, quando obteve o mesmo tratamento do Primeiro Testamento, ou seja, quando é citado (graphē; cf. Gl 4.30; 1Co 1.31; Rm 1.17; Hb 3.7).

Desde o século II, emprega-se o termo canōn à confissão de fé cristã (regula fidei) e como es­sência das doutrinas de fé reco­nhecidas pela Igreja. No século IV, Eusébio aplicou o termo exclusivamente para os Evan­gelhos, e no Concílio de Niceia (ano 325) relacionou-se o termo ao registro oficial dos clérigos; ambos têm o sentido de “catálo­go”. Vielhauer lembra que mais tarde “canônico” passou a ser compreendido como “divino, sagrado, inerrante” quanto ao que diz respeito aos livros acei­tos e catalogados.

O período decisivo para a formação literária do Novo Tes­tamento foi, portanto, nos mea­dos do século II; ao final desse século os conteúdos encontra­vam-se fixados (quatro Evange­lhos, treze cartas de Paulo, Atos dos Apóstolos, 1João e 1Pedro). A aplicação do termo canōn à coleção de textos cristãos ocor­re pela primeira vez nos meados do século IV; em rela­ção a isso, o termo canōn não tem nada a ver com o surgi­mento da literatura neotestamentária.

É razoável dizer que a primeira ini­ciativa catalográ­fica foi realizada pelo teólogo radical Markīon; ele confere sentido literário ao termo euaggelion, tantas vezes mencionado por Paulo. Markīon é rejeitado como herético pela Igreja de Roma no ano 144; mo­tivos, em resumo: incompatibi­lizar Jesus de Nazaré e o Deus do Primeiro Testamento, fazer a distinção de Paulo como único apóstolo a compreender a nova aliança – daí a exclusividade de suas cartas – e do evangelho de Lucas como único evangelho. Em resumo, também, a contri­buição de Markīon consiste em acelerar o processo de um canōn escritural.

Coube a Orígenes, no Oriente, e a Irineu, no Ociden­te, influenciarem na aceitação dos quatro Evangelhos numa persuasão sobre a vontade de Deus em favor dos caracterís­ticos evangelhos para a Igreja. Perspectivamente, a aposição entre Antigo e Novo Testa­mento ocorre em enunciações de Tertuliano e Orígenes; ex­pressamente, ocorre no Con­cílio de Laodiceia (ano 363) e na 39ª Carta Festiva de Atanásio de Ale­xandria (ano 367), onde emerge uma lista de 27 livros como “Escritura” (autorizado no âm­bito religioso).

Por outro lado, o documento orien­tador para o estudo deste tema é o denominado Fragmento de Muratori, em alusão ao seu editor, Ludovicus Antonius Muratorium; um texto latino de 85 linhas dos séculos II-III, mas conservado num manus­crito do século VIII e publicado em 1740. Nesse fragmento são aceitos os quatro Evangelhos e as treze cartas de Paulo; estão em debate para aceitação no culto as cartas 2 e 3 João, Judas, Apocalipse de João, Apocalip­se de Pedro e a Sabedoria de Salomão; são rejeitadas a carta do Pastor de Hermas, as cartas de Paulo aos Laodicenses e aos Alexandrinos; no entanto, nada diz sobre 1 e 2 Pedro, Tiago, Hebreus e escritos considerados heréticos. Entre os séculos IV e V a Igreja latina chegou a con­siderar Hebreus carta paulina e canônica.

A tradição oral e os evange­lhos estão na origem do catá­logo “canônico”. Para Helmut Koester, a tradição oral era transmitida sob a autoridade do “Senhor”, composta de ditos de Jesus de Nazaré e histórias de milagres; dentre elas, es­tão “as parábolas inicialmente escritas em aramaico, depois traduzidas para o grego e in­troduzidas no capítulo 4 do Evangelho de Marcos”.1

Quanto à documentação es­crita, as cartas comprovada­mente legítimas de Paulo são as mais antigas, todas escritas na década de 50 do século I (as comunidades contribuem na composição do corpus literário paulino). As cartas serviam ao propósito de dar uma resposta a problemas urgentes. Poste­riormente, como produtos das primeiras comunidades cris­tãs, surgiram os Evangelhos, fortemente influenciados pelo gênero biográfico; assim, pre­servam para gerações futuras a memória de Jesus. De natureza contextual, o Novo Testamen­to é cosmopolita: contém tex­tos da Ásia Menor, do mundo egeu, do vale do Jordão, da Sí­ria, de Roma.

Em adição, “a questão da inspiração não influenciou a composição do cânon, porque a pretensão de possuir o Espí­rito Santo era tão comum que esse critério só teria causado confusão”.2 Com relação à apos­tolicidade, Irineu (c. ano 170) apenas exigia a evidência de que os textos tenham servido à ins­trução e organização da Igreja; mesmo os sobrescritos autorais são à guisa de reivindicação de fidelidade das memórias.

[Dialoguei com pelo menos seis eméritos pesquisadores, dos quais citei apenas dois no texto anterior (Expositor Cristão, n. 12/2016) e dois aqui; quem sabe, num futuro, poderei fazer-lhes justiça citando-os literalmente ao coligir os dois artigos].

* João Batista Ribeiro Santos Pastor na 3ª RE, biblista e historiador, docente de Antigo Testamento na FaTeo/Umesp. Publicado originalmente no jornal expositor cristão de janeiro 2017, clique aqui.